Saudade da Vida

saudade

au,a-u/
substantivo feminino
  1. 1.
    sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas (freq. us. tb. no pl.).
    “s. de uma amiga”
  2. 2.
    mús B certa cantiga entoada em alto-mar por marinheiros.

pensando na vida

Eu demorei um pouco pra ter inspiração pra escrever esse texto, pensei em falar sobre o noivo, que está morando em Dublin e eu aqui, pensei em dissertar sobre aquele sentimento de vazio que surge após um termino de ralacionamento ou até mesmo do que sentimos quando perdemos alguém que amamos para sempre. Mas aí alguma coisa me atingiu hoje e essa coisa se chama primeiro episódio de Satisfaction.

Não me entenda mal, não estou aqui para falar sobre traição e afins, pra ser mais específica, vim falar exatamente sobre os primeiros 23 minutos da série. Então se você nunca viu e está curioso, eu recomendo que você assistir agora, antes de continuar lendo. Mas se simplesmente não esta afim, ou está sem tempo, sem problemas. Siga em frente.

Pois bem, antes de mais nada eu queria dizer que a minha vida tem sido uma loucura. Tenho tido que dividir o meu tempo entre faculdade, preparativos do casamento, estágio e mais recentemente entre fotos de formatura. E eu já comentei que meu namorado está em Dublin? E que então eu fiquei sem muita ajuda por aqui? Pois é. Além de outros problemas e dificuldades que sinceramente não vale a pena ficar listando. Ou seja, tentando manter a produtividade ao máximo, sem deixar a peteca cair. Posso simplesmente dizer que tenho me sentido overwhelmed sobrecarregada.

E assim, desde que comecei com o blog, tenho sentido cada vez mais a necessidade de sair de casa, de conhecer coisas novas, de ter tempo para fazer algo que eu gosto, até para ter o que falar aqui. Mas por que isso, só porque eu quero que o blog que cresça? Não, mas por que eu realmente gosto de sair, conhecer o mundo, descobrir coisas novas e interessantes, e gosto de, tenho verdade de dividir essas experiências. Mas cadê o tempo?

Gente, é bizarramente visível a minha diferença de humor entre um dia que eu to com tudo em dia, vamos dizer, que eu estou de férias, para um dia normal de “trabalho”. Eu sinto como se estivesse sempre a segundos de voar no pescoço de alguém, especialmente do namorado (será que foi por isso que ele foi pra longe? uhaha) e da minha mãe. Ele deve perceber a diferença. Eu rio mais, me divirto mais, ligo menos para as pequenas coisas. Enfim, acho que essa é a quase a definição de bom humor né?

Mas assim, não estou dizendo que não amo o que eu faço, eu amo, nem que minha vida é ruim, de forma alguma. Mas será que é isso? Será que isso é ter uma vida boa? Isso que eu posso esperar? Viver on the edge no limite? A ponto de explodir com qualquer um, por qualquer motivo? Gente, meus amigos da faculdade são tudo, sem eles acho que eu não teria chegado até aqui. As risadas e as brincadeiras são o que me levam pelo dia. Mas falta alguma coisa. Falta tempo para passar com eles, tempo para aprender a cozinhar um prato novo, tempo para ir até o outro lado da cidade conhecer um restaurante, para ir ao parque e ficar lá só tomando sorvete, tempo para passear na praia com meu namorado. Falta tempo pra mim. Aquele tempo que a gente tanto ama, de passar deitada na cama pensando na vida, ouvindo música. Cadê o tempo para poder dizer sim ao invés de não? Sim para o passeio, sim para o fondue na casa do amigo, sim para o seu pai que quer saber sobre um remédio novo, sim para a sua mãe que se sente sozinha e só que conversar, sim para o namorado que está sozinho num país estranho, sim pra si mesma?

Acordo todo dia 5, 5:30 da manhã, saio 20 a 50 minutos depois. Passo no mínimo 1:30 no transito. Chego na faculdade. Aula + atender até em media meio dia, 1h. Saio de lá e venho pra casa. Mais uma 1:30/2h de transito. Almoçar, tirar fotos correndo, se repreender que demorou muito tempo fazendo isso e começar a estudar. Ou ir para o estágio, comer correndo e sair de lá umas 19h, mais 1:30 até em casa e estudar! Estudar, Estudar, até uma hora que você não aguenta mais e vai ver uma série e quando olha, passou 1h e você xinga mais um pouco e volta pros livros. Aí seu namorado te liga, você xinga por que devia estar estudando ao invés de falando no telefone, aí sua mãe vem falar com você xinga e manda ela embora, por que você não tem tempo pra ela. Vou dormir quase todos os dias  meia noite, 1h da manhã vendo coisas na internet, resolvendo casamento e me xingando por que podia estar dormindo ou estudando. Não tenho tempo pra isso. E no final do dia, eu não estudei bem, eu não descansei bem e eu não vivi bem.

Resumindo, eu vivo estressada, me cobrando, reclamando, sem tempo, sem saco. Não consigo me lembrar a útima vez que me cuidei. Que tive tempo de passar maquiagem e me arrumar antes de sair de casa correndo, quando tive tempo de passar pelo menos um protetor solar. Quando consegui 30min para fazer a unha ou simplesmente dormir. Sem me sentir culpada. São escolhas, eu sei, mas uma coisa eu aprendi ao longo dos meus 25 anos. Você tem que conseguir fazer tudo. And I wanna have it all E eu quero ter tudo. Mas a que custo? E eu realmente estou conseguindo fazer tudo? Ou eu estou deixando a minha saúde e diversas outras coisas de lado para conseguir alcançar algo e provar pra todo mundo e inclusive para mim mesma que eu consigo? Que eu posso? Consigo ser boa médica, boa namorada, boa amiga, boa estágiaria, boa filha… Ter tempo para tudo isso: estágio, faculdade, casamento, ir pra academia, dar atenção aos pais, ao namorado, sair com amigos, estudar, estar em dia com as séries, com as fofocas, com a leitura, com as compras e ter assistido o último filme que saiu no cinema. Acho que essa seria a garota perfeita.

Agora eu vou soar redundante, mas voltando à série, é a história da mulher que é mãe, mulher, trabalha fora e ainda é dona de casa. E tudo tem que estar impecável, inclusive ela. Aquela mulher que consegue ser um sucesso no trabalho, ir pra academia, comer bem, ter uma casa impecável, dar atenção aos filhos, ao marido, ter uma vida sexual ativa, sair no final de semana com os amigos, e ainda ter as redes sociais atualizadas, saber de tudo que acontece no mundo, até para conseguir falar alguma coisa com os outros além de trabalho e crianças né? Se não a pessoa fica chata. E tem que passar maquiagem e se cuidar, se não marido vai acabar largando dela. E estar sempre de bom humor, ninguém merece alguém ranzinza que não para de reclamar né? Alguma coisa ela não vai conseguir dar conta. E vai viver frustrada pro resto da vida. É essa a vida que eu quero? É assim que tem que ser? Por que acho que não é isso que eu quero.

Bom, meu texto é sobre vida, sobre viver, meu texto é sobre saudade de ter tempo, saudade de mim, da minha vida. Saudade, à ausência de experiências prazerosas já vividas.

ligabc

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